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O mito de “ser feliz fazendo que ama” parte II

Posted On junho 4, 2016 at 4:08 pm by / No Comments

Por Monique Evelle

Retomando a discussão que comecei com o texto O mito de “ser feliz fazendo o que ama”, começo a Parte II com o mesmo questionamento: Não ter chefe, ter horários flexíveis e ser feliz fazendo o que ama. Esse é o tripé do empreendedorismo. Alguém me diz a fórmula mágica para isso?

Uma das coisas que não me disseram nos megaeventos de empreendedorismo é que empreender é SE VIRAR! E quem se vira hoje no Brasil? Qual o perfil dessa pessoa? Quais características? E por que ela se vira? Como diz Lucas Santana, sócio-proprietário da Kumasi e da Tríade- Comunicação e Marketing Digital, “o que chamamos de empreendedorismo, a favela sempre chamou de sobrevivência”

Depois de reler o livro Desenvolvimento e Empreendorismo Afro-Brasileiro, os dados dos Donos de Negócio no Brasil, o livro Onda Negra, Medo Branco, a pesquisa do Projeto Brasil Afroempreendedor e minha vivência, destaquei três falas que é bastante comum ouvir nos megaeventos de empreendorismo e trarei algumas observações que considero pertinentes.

  1. Comece a empreender cedo

Sobre começar a empreender cedo nós entendemos e os números mostram. Segundo a pesquisa Donos de Negócio no Brasil, do Sebrae, 85% das pessoas negras começaram a trabalhar antes dos 18 anos, 14% de 18 a 24 anos e 1% de 25 anos ou mais.

Ou seja, começamos a empreender/trabalhar/se virar desde sempre. Logo, não consigo ouvir uma dica ou sugestão dessa que, geralmente, termina com a frase “… para ter um negócio de impacto mais cedo”.

  1. Você só precisa ser criativo e inovador

Não importa se sua ideia é genial, você precisa sistematizá-la de alguma forma. No papel, em slides , fazendo o famoso pitch etc.

56% dos afroempreendedores não tem nenhuma instrução;11% têm o fundamental completo; 26% ensino médio; 2% superior incompleto e 4% superior completo. Mas claro que esses números podem ter sofrido alterações se considerarmos as políticas de promoção da igualdade em vários setores, principalmente no eixo de escolaridade.

  1. Encontre seu propósito e faça aquilo que você ama

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Não Jobs, não é bem assim

É difícil dizer isso para 62% dos afroempreendedores que sustentam suas casas, para os 22% que são casados e para os 17% que têm filhos. Não dá pra abandonar tudo e falhar cedo e barato se sabemos que o lucro do empreendimento dessas pessoas complementa a renda familiar.  Mesmo achando nosso propósito, é um processo complicado e doloroso.

Pois bem, o que temos hoje no Brasil são 38%, 5% de empreendedores negros e negras que faturam até R$ 1 mil; 33,5% entre R$ 1 mil e R$ 5 mil; 11,6% entre R$ 5mil e R$ 10 mil e 12,6% acima de R$ 10mil. Infelizmente, nos eventos de empreendedorismo meritocrático, os 12,6% são os mais citados para justificar as três frases que listei aqui.

Antes de você questionar que para melhorar este quadro é só fazer capacitações, saiba que 32,7% dos afroempreendedores fizeram formação com o Sebrae. Daqueles que não fizeram 17,6% falaram os valores absurdos dos cursos; 12,6% da falta de tempo, 14,1% por não saber onde encontrar cursos e 47,9% outros motivos.

Sobre os valores absurdos você não precisa negar que é verdade.

Afinal, quanto vale um curso para você encontrar seu propósito, se tornar um capitalista consciente ou alavancar seu negócio? Faça uma pesquisa rápida.

A respeito da falta de tempo,  92% trabalham sozinhos, não são empregadores. Ou seja, precisam fazer tudo para que seu empreendimento continue existindo. E sobre não saber onde encontrar cursos, apesar da popularização da internet, smartphone não garante que a pessoa saberá filtrar informações que vão além das redes sociais que conhecemos. Se a pessoa não tiver o primeiro contato com determinado tema, nunca terá o interesse e disponibilidade para procurar sobre o assunto.

O retrato da maioria dos Donos de Negócio é esse:

Homem , branco, não jovem , que trabalha em comércio ou serviço

Recentemente assisti uma palestra de Renato Meirelles, CEO do Data Popular, mostrando o resultado de sua última pesquisa sobre uso das marcas. 71% dos negros afirmam preferir marcas que melhorem a autoestima. 74% dos negros concordam com a frase “prefiro comprar produto de empresa que respeitem a diversidade.” Pra essa mesma afirmação, 50% dos brancos concordam. 91% dos negros não comprarão marcas que de alguma forma não respeite a comunidade negra.  E outra coisa: nós negros e negras movimentamos 1.573 trilhões na economia deste país.

Isso significa com o surgimento de diversos e-commerces, principalmente camisetarias,, a marca que irá durar mais tempo será aquela que conseguir compreender e incorporar este panorama.

Mais do que colocar em práticas essas questões, quem está por trás da marca importa? Ou melhor, o que importa: a estampa legal e inclusiva, quem está pensando/produzindo esta estampa ou os dois? E se for um filme, importa quem está dirigindo? O que seria então representatividade? A simples presença no espaço ou a participação em todo processo de decisão e escolha?

#FICADICA

Poderia indicar mais pesquisas, documentários, sites etc. Mas prefiro indicar o livro Onda Negra, Medo Branco de Célia Azevedo que fala do processo de desenvolvimento econômico no período pós-escravista e como esse modelo se mantém até agora. É interessante para entender que nada disso foi por acaso. É um estrutura construída perversamente.

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